Este artigo não é um ataque a nenhuma figura religiosa ou pública, mas um ato de amor a Deus, à Sua Igreja, de defesa da Doutrina e de responsabilidade. Agimos amparados pela própria lei da Igreja, conforme o Código de Direito Canônico, que nos confere o direito e o dever de expressar nossa opinião para o bem comum, respeitando a dignidade das pessoas. Essa norma nos encoraja a não nos calarmos diante do erro, mesmo quando ele se manifesta em nossos superiores, tornando nossa voz um serviço à ortodoxia e à própria Igreja.
Cânon 212 §3. Os fiéis, segundo a ciência, a competência e a proeminência de que desfrutam, têm o direito e mesmo por vezes o dever, de manifestar aos sagrados Pastores a sua opinião acerca das coisas atinentes ao bem da Igreja, e de a exporem aos restantes fiéis, salva a integridade da fé e dos costumes, a reverência devida aos Pastores, e tendo em conta a utilidade comum e a dignidade das pessoas.
Diante deste chamado, recordamos também uma frase citada por Monsenhor João Clá Dias em sua tese sobre a vida e obra do Dr. Plínio Corrêa de Oliveira (O Dom de Sabedoria na mente, vida e obra de Plínio Corrêa de Oliveira. Pág. 17 – Livro II.):
“Certos problemas, quando se apresentam, se não forem superados à luz do ensinamento da Santa Igreja Católica voltarão em todas as épocas da existência de modo cada vez mais trágico e insolúvel“.
Esta é a única bússola confiável que temos em um mundo de incertezas. Em nossa jornada, a luta principal se dá contra o mundo, contra Satanás e a nós mesmos, na busca incessante de viver de forma plena, ancorada pela Verdade e pela ortodoxia da fé. Isso implica não ceder à suavidade, que facilmente se converte em pragmatismo e conveniência, comprometendo princípios inegociáveis, nem ao sentimentalismo, que nos leva a justificar escolhas por afetos pessoais em vez de valores imponderáveis e de bens que não passam.
A história nos ensina, ao olharmos para o Palácio de Versalhes – símbolo da Revolução Francesa –, que ele não foi apenas uma obra-prima arquitetônica, mas o grande símbolo da extravagância e da desconexão entre o poder e a realidade do povo. A corte vivia em uma bolha dourada, enquanto a nação clamava pela defesa da fé e por liberdade. No presente, a história parece ecoar esse cenário. A alta sociedade brasileira, em seus eventos e círculos fechados, por vezes recria essa mesma atmosfera de luxo e distância. E quando essa elite abarca autoridades de nossa mais alta Corte, as quais são acusadas, e claramente agem para cercear a liberdade de expressão e a imprensa livre, e também, de violar direitos humanos, mantendo presos políticos e pessoas sem o devido processo legal ou direito a defesa, o que se revela é uma desconexão ainda mais perigosa: a do poder em relação aos princípios que deveriam ser sua fundação.
Diante disso, o mundo nos oferece atalhos: em primeiro lugar, a suavidade, que pode nos levar ao pragmatismo, onde os princípios são negociados em nome de uma falsa paz. Como bem observou Winston Churchill em um momento crucial da história, “Vocês tiveram que escolher entre a guerra e a desonra. Vocês escolheram a desonra e terão a guerra”. Analogamente, ao optar pela suavidade e pela conveniência, pode-se escolher uma “paz” que, no fim, resultará em maior desonra e conflito. O segundo, e mais perigoso, é o sentimentalismo, que nos inclina a justificar escolhas com base em amizades e afetos, em vez de valores imponderáveis.
Para ilustrar o ponto que levanto, consideremos o que foi noticiado sobre uma recente festa da esposa do ministro do STF Gilmar Mendes, Guiomar Mendes. Conforme matéria publicada no Portal Metrópoles, a renomada advogada esteve cercada por autoridades de alta patente. Estiveram presentes ministros do STF como Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso, o Ministro da Justiça Ricardo Lewandowski, além de outras figuras do Executivo, Legislativo e das diversas cortes do Judiciário. O evento contou, ainda, com a presença de uma personalidade ligada a uma instituição religiosa e ao clero.
A citação deste veículo de imprensa não visa dar ao Portal Metrópoles um endosso editorial, mas serve para contextualizar o evento de forma factual.
Argumentar contra a validade da fonte, neste caso, seria uma tentativa de desviar o foco do principal: a natureza e o simbolismo do evento em si.
O link com a matéria completa segue abaixo:
https://www.metropoles.com/colunas/claudia-meireles/guiomar-mendes-e-homenageada-por-familia-e-amigos-em-festa-prestigiada
Quando vemos um religioso em um desses “Palácio de Versalhes” contemporâneo, a nossa percepção não deveria ser somente sobre “Ele está fazendo apostolado! Excelente!”, mas se essa atitude não é, em si, um questionamento de que será que “os meios justificam os fins”? Será que vale tudo por uma causa?
Santo Tomás de Aquino argumenta na Suma Teológica (I – II, q. 1, 12 e 13), que um ato moral tem duas componentes principais. O fim, sua causa formal, que é definido pela vontade e as circunstâncias, os meios, a causa material, que está sujeita à razão. Portanto, para que um ato seja mal, basta que um dos componentes estejam comprometidos. Já a bondade é mais exigente, os dois precisam estar corretos. Diante disso, concluímos que a questão “os meios justificam os fins” não faz sentido algum.
Ademais, conforme nos ensina o Dr. Plínio Corrêa de Oliveira (Conferência proferida por ocasião da 4ª. sessão das Semanas Sociais do Brasil, dedicada ao tema “A família e a questão social”, em São Paulo – s/d 1940): “A restauração do homem em Cristo é o grande problema fundamental. Sua conversão é condição essencial para o bom êxito das obras sociais, às quais o católico deve se dedicar com inesgotável ardor.”
Não vimos movimentos de conversão por parte dos homens da mais alta corte do Brasil. Portanto, o que o clérigo estava fazendo nessa festa? Estava sendo pragmático? Estava denunciando a violação da liberdade dos brasileiros?
A supressão da liberdade e dos direitos são atos que não apenas ferem a constituição, mas violam a própria essência da liberdade humana, que nos foi dada por Deus. Para atestar esses valores, que devem ser inegociáveis e não relativos, cito mais uma vez Santo Tomás de Aquino na Suma Teológica (I, q. 83.), na qual ele afirma que a verdadeira liberdade não se encontra no simples ato de escolha, mas na OPÇÃO PELO BEM.
De fato, a nossa luta diária é optar pelo Bem, para viver o “perfecto odio oderam illos” (Citação em latim extraída do Salmo 138, 22.), um amor a Deus que odeia o que o ofende, como a violação da liberdade humana. Essa luta é para que a nossa ortodoxia não seja apenas teórica, mas a força que move cada uma de nossas ações.
Chegamos, então, ao ponto central e mais doloroso de nossa reflexão. O legado de Dr. Plínio era uma defesa intransigente da ortodoxia e um combate ferrenho a tudo que evidenciasse à complacência ou à Revolução. Sua vida foi um exemplo de coerência na luta contra o erro, o relativismo religioso, e tudo aquilo que atacasse a Bondade, a Beleza e a Verdade.
A presença de um clérigo, em um ambiente que simboliza tudo o que o Dr. Plínio combatia — a revolução, a extravagância, a desordem, e o poder que se sobrepõe à lei e a verdade — é a prova mais dolorosa de sua falência. O “faça o que eu falo, mas não faça o que eu faço” é uma realidade que se manifesta na contradição entre o legado da luta pela ortodoxia e a atitude que, por pragmatismo ou sentimentalismo, escolhe a conveniência em vez do princípio.
A nós, fiéis, foi dado o sublime chamado de ser o sal da terra (Mt 5,13). Mas, como afirma São João Crisóstomo em suas homilias sobre Mateus: “De nada serve deitar sal ao que já está podre”.
Essa constatação, portanto, nos deixa com uma dura realidade: a luta pela ortodoxia, e contra a suavidade e o sentimentalismo não é um debate teórico, mas um desafio real que nos exige a coerência de vivermos, na prática, o que cremos na fé.
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